sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

DESTINO INESPERADO


A dor se avizinha
Mas não se manifesta
Em um rio que está calmo
A tormenta adormece
Um sentir que faz represa
E rompe em um instante
Mesmo sem estar presente
E o mal estar que agora sente
Foi a surpresa de ontem
Uma busca ao tesouro
Na qual o ouro acabou
Esta é a unidade de tempo
Que será a derradeira
Um segundo diluído
Que prenuncia
A chegada do último dia
Mas a alegria soprava forte
E a sorte animava
Meu passado era rei

Só que hoje é uma estrada.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

DEUS EXISTE!

Deus foi o inverno russo
Que derrotou o exército alemão
O limiar da extinção humana
Pra que deixasse de existir
Como conhecemos
A oportunidade de refazer o planeta
Incontáveis vezes
Incêndios sem número
Invernos memoráveis
Todos esquecidos
Espécies se foram
Mas a matéria é a mesma
Ela permanece
A consciência surgiu
Floresceu lentamente
Em uma longa gestação
Cujo término talvez não tenha chegado
Aqui estamos
E o questionamento teve origem
Desde então se dissemina
Prolifera sem cessar
O desconhecido tomou a forma do mar
E o respiro não era nada sem ele
E só nele fazia algum sentido
Se Deus tiver existido
Em toda sua vida atemporal
Foi naquele inverno russo,
Inesperado como todo revés,
Rés ao chão houve asfixia
O ar se foi nesse mergulho

Um barulho que despertou meu dia

RUPTURA INSUSPEITA

O corpo mutilado em carne viva
Sem o anteparo do conserto
E da cirurgia reparadora
Foi antecedido daquele sorriso
Da alegria insuspeita
Que rejeita veementemente
Qualquer vislumbre da dor
Naquele passado não havia dissabor
Mas o presente é outro mundo
Outro enquadramento do mesmo rosto
Capturado em outra imagem fotográfica
E aquela feição estática
É a mudança, a grande ruptura,
Um viés nunca imaginado
Da mesma pessoa em pedaços
Muleta que se deseja
Em todo o seu esplendor
Ampara, mas não alcança,
Pois o desamparo não se extingue
E o encaixe acabou e desfez o ego
A visão se fecha e a janela encobre,
sua opção se fez agora,
E o cego se encolhe.


SANEAMENTO PÚBLICO

O mau odor organizado
Segue um padrão infalível
Casa após casa,
Ocorre a oferenda pública de dejetos
Enviados para local (quase) desabitado
Limpeza circunstancial
Transferência de resíduos
Contaminação dos lençóis freáticos
Saúde é mera perspectiva:
Quero apenas distância desses excrementos!
Não importa para onde se transfiram!
É um processo higienizado,
Que segue todos os padrões de qualidade!
Esgoto é saúde,
Esgoto é desenvolvimento!
Queda da mortalidade infantil!
Do chão se levanta a vida
E do braço do homem
Marrom e tortamente
A vida pode se reciclar
Embora ainda seja incipiente
Não se trata de uma nova vida
Mas poupa-se breve sopro
Que nos empresta a existência.

                                                                       

sábado, 24 de janeiro de 2015

LÁ FORA

Parede ilustrada,
Abstrata e desencantada
Um revólver inseguro
Que aponta sem hesitar
Desse lugar veio um verso
Um universo sem espaço
E em meio a tudo isso
Meu tédio gera frutos:
Não posso me atrasar
Para a festa da vida
Por isso, de qualquer jeito,
Sem despeito ou floreio
Foi exposto aqui.
Aquele seio não há,
Pois a fonte secou
A carta permanece lacrada
É vida que pode esperar
O cômodo mais íntimo
Tem esse aconchego
E a língua tem esse recurso
Que faz vida indefinida
Desperdiçar é fácil:
Existem tantas!
Não cabe a mim revelar
Sobre artigos definidos nada sei
Sei que o vínculo não se formou
E que o sopro tem amplitude indefinida
Nesse meio tempo
A arma se prepara por detrás da janela,
Mas permaneço encerrado
Guardando não se sabe o quê
Quero entreter os objetos
Acalentar o vazio desse verso

Que surgiu não se sabe de onde.

DESARMONIA



Aves que permeiam a flora nativa,
Um transplante sem coração,
Ou qualquer órgão
Que vislumbre sentimento bom
Ornamento espontâneo se perde,
Enxotado em debandada se desfaz
Frágil como qualquer exemplo de vida
Sobra esse VERDE inocente
Que evoca um patamar de plástico
E exala o papel moeda
De longe se houve a revoada
Vívida e estridente,
Mas agora tudo é silente
E foi nesse contexto
Que pousei em meu prato
uma (falecida) cédula
Daquelas de UM REAL
Temperei com sal,
azeite e cheiro verde,
Ansiava obter alimento,

mas o dissabor não permitiu.