sexta-feira, 28 de novembro de 2014

IMPÉRIO SILENTE

A lei maior é o silêncio que impera
De modo que a palavra perde valor
Na medida em que é repetitiva
E sua presença deve ser invocada
Mas se a afonia permanece
É porque ela persevera
E agora está sem luz e sem voz
Pois não há mais atroz
Que essa retórica intrometida
Que ultrapassa a garganta
E se espreme com essa tosse
Nesse pensar que se faz manifesto
E que eu jurava nunca ter tido.


PRENÚNCIO

Não resta paciência
Para o TRÁGICO cinema
Sei onde a escrita se esconde
E há rascunho em todo o redor
Traço leve desse sol espalhado
Que SUBLINHA o horizonte
Alegria em cores VIVAS
Máquina rumo ao passado
Um poema-piada sem risos
Cercado de tristeza salpicada
Apenas felicidade ENCRAVADA
Quase sempre somente palavras
Em corpos tortos e despreocupados
SEMENTES inócuas
E mais NADA!

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

FANTASIA DE PÁSSARO



Dedicado a Manoel de Barros

Leio de cabeça pra baixo,
Estou DESLENDO[1],
Minha cabeça em direção ao solo,
Estou DECRESCENDO,
Tudo isso harmoniza como algo normal,
Meditação inventiva,
Recreio imerso em tortura,
Exercício de cores vermelhas,
TODAS ELAS, em várias tonalidades,
Brincar sem maldade,
Lisura de alma,
Vazia como o ABSURDO.
Alguns sonham PASSARINHO,
Eu também fiz pássaro: MORCEGO,
Incomum, é verdade,
Mas mesmo assim, POSSO VOAR!




[1] BARROS, Manuel de: Livro sobre nada, p. 30, Editora Record, 3a edição, 1996

terça-feira, 11 de novembro de 2014

POEMA INFANTIL



--  I  --
Pequena leoa, nobre prévia do MEDO
Cujo resfolegar desde cedo é prenúncio de toda FERA
Desponta sem receio, pois seu FUROR não admite recatos
Nem pudores mundanos; Tudo nela é intempestivo
Pequeno brincar infantil sem pujança ou perigo

-- II --
Infâncias que se igualam: INSTINTOS que preponderam
Humano e INUMANO dotados de linha tênue
O que torna difícil distinguir: determinar a FRONTEIRA
De modo que talvez NUNCA se manifeste
A reta INCONTESTE que se chama RAZÃO.